quarta-feira, 11 de abril de 2007
CONGRESSO CIEJA CL (Eda luis)
Congresso apresenta na teoria e na prática modelos de escolas democráticas
Eda Luiz, coordenadora-geral do Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos de Campo Limpo (CIEJA-CL), na zona Sul de São Paulo, relatou sua experiência. Desde 2002, ela exercita, na prática, o modelo de escola democrática. "Sempre me incomodei com o fato da Educação de Jovens e Adultos – EJA – ser vista e tratada como um apêndice da educação", observa Eda.
Ela inicia sua explanação citando Paulo Freire: "Experiências não se transplantam, elas se reinventam". Conta que o CIEJA-CL nasceu em 1999 para atender a demanda de alunos excluídos, sem certificação, dificultando ainda mais o ingresso ou recolocação no mercado de trabalho.
Em 2002, a sede da instituição mudou para o Campo Limpo, bairro conhecido por grandes índices de violência. "O desafio era proporcionar educação às camadas populares unindo forma, conteúdo, educação e democracia. Me encontrei com Paulo Freire, que me deixou mais estimulada a mudar", conta. A partir daí, o centro assumiu o conceito de escola aberta, mas tiveram dificuldades com o atendimento. "Para isso, criamos espaços polivalentes, onde, além de aulas, damos palestras e informamos os alunos. Sem chaves, sem portas, para desenvolver o respeito ao espaço e ao material comum."
O sistema de ensino é modular. São quatro módulos que trabalham áreas de conhecimento através da metodologia de problematização, com a fusão de saberes vividos e acumulados. Entre elas, Ciências Humanas, Ciências da Natureza, Ciências Sociais, Linguagem e Códigos. De segunda à sexta, os alunos passam por aulas, oficinas, extra-classes, assembléias e combinados entre estas modalidades. "Cada um depende de todos e todos de cada um", diz Eda.
Sobre os princípios da CIEJA-CL, ela aponta a solidariedade e o respeito; a sustentabilidade – através da geração de renda, da economia solidária e da reciclagem –; a criticidade – entender causas dos problemas e questionar o porquê de como está sendo feito o processo – e a criatividade. "Pensamos o currículo considerando as necessidades de todos. Todos são iguais, com capacidades iguais. Por isso, no CIEJA, todos ficam juntos, independente de idade, cor e mobilidade", destaca.
Os professores do Centro pesquisam em cima da problematização e auxiliam os alunos, que são avaliados de múltiplas formas. Eles definem projetos a pesquisar e, depois, apresentam aos demais alunos. "É feita uma auto-avaliação com cada aluno, para que se perceba como produtor do seu conhecimento. Também temos um diário de bordo, com foco na avaliação da leitura e da escrita", conta Eda.
O público-alvo do centro é formado de pessoas com necessidades especiais, jovens em liberdade assistida, pessoas em situação de rua, plantonistas, trabalhadores por turnos e adultos. Hoje são 1.342 alunos, 146 deles portadores de deficiência. E 50 funcionários. Todas as decisões são tomadas em assembléia. A grande placa na entrada do prédio do CIEJA resume bem os freqüentadores: "Lugar de gente feliz".
Incentivo e motivação
O eletricista Erpídio dos Santos, 41 anos, assistia à apresentação da mesa. Seu envolvimento com as palavras de Eda era maior, afinal, desde fevereiro deste ano ele é aluno do CIEJA-CL. A volta aos bancos escolares foi exigência da empresa de ônibus em que trabalha. Erpídeo mora no Vale Velho, próximo ao CIEJA, e aprovou a metodologia do Centro por ser diferente das demais escolas. Já concluiu o primeiro dos módulos. "Aprendemos em cima do que queremos, não vejo discussão. Outra coisa importante é a companhia das pessoas, ter alguém para conversar, respeitar a maneira de ser de cada um. Isso também é uma forma de aprendizado", revela. O paranaense Erpídio vive há 25 anos em São Paulo. Na cidade natal fez as 1ª e 2ª séries, depois, aos 19 anos, fez a 5ª série. Já na capital paulista, voltou à escola aos 23 anos, na 6ª série, mas só ficou um mês. "O ritmo era muito puxado para mim, que trabalhava e estudava", conta. Hoje, ele continua com a jornada dupla, pois estuda no turno das 20h15 às 22h30 do CIEJA. Ele acredita que em um ano terá passado por todos os módulos. O eletricista fala sobre o Piso Azul, nome dado a um espaço do CIEJA-CL dedicado às assembléias e às apresentações de projetos de alunos. "Todos temos medo do Piso Azul, porque não fomos acostumados a falar em público, a expor nossas idéias, a nos posicionarmos. Você vai aprendendo a deixar de ter medo de errar. O erro de hoje faz o acerto de amanhã." A turma de Erpídeo tem cerca de 45 alunos, que se dividem em grupos de trabalho. "Hoje vejo o erro que cometi lá atrás, de não ter estudado. O que aprendemos ajuda muito no trabalho, mas é principalmente para a vida." Além das motivações profissionais, ele tem uma mais forte: o filho de 13 anos. "Ele precisa de mim, tenho que ser modelo, exemplo e servir de incentivo para que ele entenda a importância do estudo", confessa.
Uma proposta centenária e para o mundo
Dando seqüência à mesa redonda, Helena Singer, pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e diretora do Instituto para Democratização da Educação no Brasil (IDEB), apresentou um vídeo sobre a educação democrática. A socióloga estuda há anos o tema e foi responsável por apresentar seus avanços teóricos. "Há 15 anos, quem falava em aquecimento global era considerado louco. Na mesma época, comecei a estudar as escolas democráticas e pensei a mesma coisa. Hoje é uma realidade. É possível ter uma mesa como esta num congresso internacional de Educação", diz.
Ela lembra que, em 1996, a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) possibilitou mudanças. "Começou a ser possível fazer a escola democrática no Brasil. Cada escola pode escolher sua maneira de trabalhar. Acreditava-se que isso era coisa para países ricos ou para pessoas ricas."
Para a pesquisadora, esta realidade é outra devido, primeiro, à revolução tecnológica. "Ela mudou a idéia de que conhecimento se acumula. Não é mais necessário acumular, mas, sim, navegar no conhecimento. Saber usa as informações." Outro fator é a teoria contemporânea sobre o aprendizado. "O movimento é um aspecto importante da Educação Democrática. Se eu ouço, esqueço. Se vejo, lembro. Se faço, eu aprendo", explica. Helena coloca como terceiro responsável a educação para uma sociedade solidária. "É necessário fazer, não apenas guardar."
Como aspectos da Educação Democrática, a socióloga aponta a própria Democracia, que se dá na gestão, através das assembléias, em que o bem-estar comum é o que vale, no conhecimento, com múltiplas facetas, e na aprendizagem com respeito aos ritmos e interesses. "Os grupos se formam naturalmente, por interesses em comum. Não é preciso agrupar. É como ter em escola um sinônimo de comunidade democrática."
Como exemplo, Helena fala do próprio CIEJA-CL: "Eda foi modesta ao dizer que tem 1.342 alunos, sendo 146 deles incluídos. Pela abertura, flexibilidade e pelo acolhimento desta escola, todos os 1.342 são incluídos".
Para finalizar sua apresentação, a pesquisadora aponta o histórico da Educação Democrática. "Ela é uma proposta centenária. Tem a escola Yásnaia-Poliana, dirigida por Leon Tolstoi, entre 1857 e 1860, na Rússia, para filhos de camponeses. O Lar das Crianças, fundado e dirigido por Janusz Korczak, de 1912 a 1942, na Polônia, para crianças órfãs. Neill, Freinet, Makarenko...", cita. Além de antiga, Helena defende que é uma proposta para o mundo. "Temos exemplos de escolas públicas em Israel, Portugal e Guatemala. Escolas particulares na América do Norte e na Europa. Cooperativas de pais e educadores nos países nórdicos. Escolas, EJAs e projetos de educação não-formal na Tailândia, na Índia, na África e no Brasil." E ressalta: "A escola democrática não é um modelo pronto, mas os princípios que a norteiam são os mesmos em qualquer lugar e época: igualdade, liberdade, solidariedade e fraternidade".
O moderador, Ezequiel Theodoro da Silva, encerra os trabalhos do Congresso em São Paulo, destacando o trabalho do professor, um trabalho de dedicação, que demonstra que olhar para o outro nos faz ser gente. "Hoje, 1/3 da população deste País está envolvida diretamente com a educação. Somos espelhos sociais e é fundamental que nos sintamos importantes e necessários neste trabalho social." Para concluir, Ezequiel deixa uma frase de Manuel de Barros para reflexão: "O que eu sinto é aquilo que me falta".
Serviço:
V Congresso Internacional de EducaçãoSão Paulo: 11 de abrilRio de Janeiro: 2 de maio0800-2822266 Informações e material apresentado no Congrresso: www.congressomoderna.com.br
CIEJA-CLRua Cabo Estácio da Conceição, 176Parque Maria Helena(11) 5816-3701
Instituto para Democratização da Educação no Brasil (IDEB)Rua Lincoln Albuquerque, 328 Perdizesideb.educacao@terra.com.br
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